Edição 04/11/2011 às 00:28h

O sorriso etrusco

Cronista fala do amor incondicional

clique para aumentar O sorriso etrusco

Amar é tão simples, tão bom, tão barato, tão acessível, tão importante que me pergunto por que o amor está tão em falta nos relacionamentos atuais já que estamos conscientes das conseqüências de sua ausência.

         É tão agradável ao espírito ver o amor nas relações entre pais e filhos, marido e mulher, avós e netos, tios e sobrinhos, irmãos e irmãs, entre vizinhos, entre amigos, entre as pessoas de modo geral – quaisquer que sejam, não importando raça, religião, sexo, cor ou classe social.

O amor entre pessoas demonstra nobreza de caráter, pureza de espírito, civilidade, grandeza de alma e verdadeiro respeito a Deus.

         Para uma pessoa que distribui amor com prodigalidade a vida corresponde com amor em dobro.

         É uma lei natural. Talvez faça parte dos princípios divinos de Justiça.  

         Na verdade, se distribuímos amor recebemos amor. Se distribuirmos ódio certamente é o ódio que teremos.

         E o amor está disponível em todas as fases de nossas vidas. Na infância, na juventude, na maturidade e na velhice. Acompanha-nos do berço ao túmulo.

Discutindo com uma amiga médica sobre a importância do amor na vida do idoso, nas relações deste com terceiros, com filhos, esposa e netos, aconselhou-me, ela, – que é pessoa esbanjadora na distribuição de amor, do amor puro e desinteressado – a ler a obra do escritor espanhol José Luis Sampedro, “O Sorriso Etrusco”, lançado no Brasil pela livraria Martins Fontes, São Paulo, em 1996, já com edições mais recentes.     

         Sampedro que nasceu em Barcelona em 1917, foi senador por indicação real na primeira legislatura após a restauração da democracia naquele país e é membro da Real Academia de la Lengua Espanhola.

Além d’O Sorriso Etrusco publicou “La sombra de los dias (1945), Congreso en estocolmo (1952), Un sítio para vivir (teatro, 1955), El rio que nos lleva (196l), El caballo desnudo (1970) e uma trilogia intitulada Los círculos del tiempo, de que fazem parte Octubre, Octubre (1981), La viela sirena (1990) e Real sítio (1993).

         Os livros “Mar al fondo e Mientras la terra gira”, editados entre 1992 e 1993, agrupam a maioria  dos relatos publicados  esparsamente ao longo de sua vida.

         Em “O Sorriso Etrusco” Sãmpedro dá uma lição de amor, conseguintemente, de vida.

         A história toda é contada no ambiente da moderna Milão. Começa, porém, no museu romano de Villa Giulia, onde o velho, fascinado, contempla a escultura do casal etrusco.

         Famosa por sua beleza e raridade a escultura está, hoje, protegida pelo museu.

         Trata-se de um grande sarcófago etrusco de terracota. No sepulcro, sobre a tampa, se reclina o casal humano. “A mulher, apoiada no cotovelo esquerdo, o cabelo em duas tranças caindo-lhe sobre os seios, curva delicadamente a mão direita, aproximando-a de seus lábios carnudos. Às suas costas o homem, igualmente recostado, barba e ponta sob a boca fauniana, enlaça a cintura feminina com o braço direito. Nos dois corpos o tom avermelhado da argila pretende denunciar um fundo sanguíneo invulnerável ao transcorrer dos séculos. E sob os olhos afastados, orientalmente oblíquos, floresce nos rostos um mesmo sorriso indescritível: sábio e enigmático, sereno e voluptuoso”.

         Esta imagem, representando a sabedoria, os mistérios e a voluptuosidade, conduz toda a história que é a narrativa da vida do velho calabrês.

         História que, brilhantemente exposta, é um retrato da Itália.

         Uma Itália que apresenta contraste.

A rica região Milanesa, do Norte e o pobre Sul Siciliano.

A cultura étnica dos do norte, as artes, a música, os museus, a pintura, as esculturas, a moda, o vigor da modernidade milanesa contemporânea com suas indústrias e comércio internacional, são representados pela nora Andrea, professora universitária e filha de importe político italiano falecido.

 As áridas extensões territoriais que constituem o pé da bota italiana foram invadidas através dos séculos por povos os mais variados, desde os gregos até aos norte africanos atuais.

Entretanto, de todos os povos o que mais marcou a região foram os etruscos que deixaram sinais de uma civilização superior. E é destes desaparecidos, antigos habitantes da região, que sobrevive muito dos costumes que ainda hoje exercem influência nos hábitos do povo calabrês.

Povo pobre. Não há indústrias em comparação com o norte e o comércio local é fraco. Não há vida cultural e as pessoas vivem dos produtos da terra ainda explorada de forma rudimentar, artesanal. Criações de carneiro e gado bovino, produção de queijo, mel e plantação de oliveiras. Eis tudo.

Mas o povo é de uma consistência moral e afetiva diferente. O machismo sobrevive, impondo regras de conduta familiar, religiosa e de relacionamento. A violência ainda faz vítimas com base nos antigos costumes de se eliminar o rival por qualquer meio disponível, por qualquer picuinha, e os homens só são respeitados na medida em que demonstram coragem para eliminar adversários. É o berço da máfia siciliana, que, entretanto, não é mencionada, não se fica sabendo o motivo. 

  Os hábitos gastronômicos do sul são embasados no vinho caseiro, azeitonas e queijos fortes e os remédios vem da flora regional. Nada de químicos.

Esta rude vida é representada pelo principal personagem Don Salvatore Ronconi, ex-partigiani, que fez guerra aos alemães na segunda guerra mundial e aos quais destila ódio até o presente.

Don Salvatore, também conhecido por Bruno, nome que adotou durante a guerra, é retirado de sua terra natal, Roccasera, perto de Catanzaro, para tratar de um câncer que o acometeu e é levado à Milão por seu filho, Renato, para tratamento.

Durante o tratamento desenvolve-se a trama que acaba convertendo o velho e rude aldeão machista e sistemático, num ser sensível e amoroso.

Não é à doença que se atribui a mudança, mas, sim, ao neto que, em ele vendo pela primeira vez, causa profunda transformação no caráter frio e duro como pedra.

Recheado de amor, de ternura, de carinho, de emoção, de esperanças o texto nos vai conduzindo por uma senda de expectativas com relação à morte que está à espreita e é na singeleza, na simplicidade, na humildade do velho avô, em contraste com os finos hábitos milaneses (a quem o velho atribui fraquezas femininas) que o neto desabrocha, tornando-se o traço de união de toda a família.

Este velho e rude aldeão, ranzinza e mal humorado, às vezes, por ser contrariado em suas convicções arraigadas durante toda uma vida, acaba por tornar-se personagem importante na Universidade de Milão, como fonte inesgotável de informações sobre o folclore e os costumes do Sul, o que causa assombro à nora Andrea, que o julga sempre como incapaz.

Conquista, ainda, na decrepitude e apesar de todas as dores abdominais causadas pela doença, o amor mais puro que se pode conquistar de e por uma mulher. Um amor de casal, mas quase sem sexo (dizemos quase, porque, se o há, apresenta-se de modo apenas insinuado e é raro pelas mazelas da doença), porém pleno de compaixão, de solidariedade, de companheirismo, de altruísmo, de desprendimento e, sobretudo, de pureza.

Quem é avô é capaz de compreender, perfeitamente, o que representa o amor de e por um neto.

É a flor que desabrochou do galho de um velho tronco. É a troca do bastão entre corredores, do que termina a corrida para o que a inicia. É a reencarnação do gene do velho no novo. É a vida que continua. É a esperança. É o amor.

A trama chega ao fim, para tristeza do leitor, com o velho morrendo abraçado ao neto no momento preciso em que este consegue pronunciar a tão esperada palavra – palavra que o avô esperou desde o dia em que chegou a Milão e que não se cansou de ensinar ao menino - “nono” (forma carinhosa de avô em italiano).

Deitado na cama, em seu último instante, um sorriso de felicidade plena desabrocha na face do velho, o sorriso do etrusco, um sorriso sábio, sereno e enigmático.

           

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