Inferno pode não ser tão mau assim...
Cronista sintetiza conhecimentos sofre o fogo
Já nos primórdios da civilização o homem compreendeu que estava sujeito, para sobreviver, aos quatro elementos da natureza: o ar, a terra, a água e o fogo.
Compreendeu que não poderia viver sem respirar, sem beber, sem a terra para pisar – já que não sobreviveria exclusivamente dentro d’água – e sem o fogo, com o qual cozinhava os alimentos, se aquecia nos gélidos dias de inverno e iluminava as densas trevas das longas noites solitárias.
Pode perceber, pela observação, que os quatro elementos eram purificadores e renovadores da vida.
Os ventos fortes sopravam, renovando o ar e trazendo, em seu movimento incontrolável, o perfume e odores de lugares distantes e levando para outros destinos a densidade opressiva de ares parados e contaminadores do ambiente. O ar renovado vitalizava os pulmões e o sangue, deixando a sensação de limpeza, de pureza.
A água além da função básica de saciar a sede reavivava os vegetais, abastecia os mananciais e deixava no ar a umidade benfazeja que acariciava a pele humana, dando-lhe vida e frescor. Entretanto, tão importante quanto, servia para lavar, limpar, sendo assim mais um elemento purificador.
A terra, que acolhe em seu seio folhas, flores, sementes, frutos, ramos, gravetos e tudo o mais, converte em húmus toda matéria orgânica, transformando-a em suporte alimentar para novas plantas e para pequenos seres que habitam em seu interior. Ao reduzir cadáveres em poeira e cinzas, alimenta, aduba, transforma e purifica a natureza.
O fogo, talvez o último dos elementos a ser conhecido, causou a princípio perplexidade ao nosso primitivo ancestral. Aprendendo, com tempo e prática, a provocá-lo, controlá-lo, extingui-lo e a dominar seus segredos passou a utilizá-lo a seu serviço.
A trajetória do homem pelo tempo chegou à era dos alquimistas. Estes estudiosos, pais de nossos modernos químicos, não se pouparam ao estudar as origens, as conseqüências e os fins dos elementos e criaram inúmeras teorias sobre sua atuação natural.
Observaram no que diz respeito à purificação que, ao enterrar o cadáver, este se dissolvia, de modo que não causava mau cheiro e nem ficava exposto, em sua decomposição, ao horror e sofrimento dos familiares e amigos e não se sujeitava a repulsa das pessoas.
O mesmo acontecia se o cadáver era despejado no mar ou em outras grandes águas.
Por aqueles que eram adeptos de que os corpos sem vida deveriam ser destruídos pelo ar, servindo de pasto aos abutres ou a outras aves de rapina, altas torres eram construídas para o repouso do falecido, em lugares distantes, onde o mau cheiro e a visão da degradação humana não fossem observados pelas crianças principalmente. Apesar de lento, o sistema também era uma forma de purificação.
O fogo. É fácil compreender sua natureza purificadora. Até hoje os modernos fornos crematórios cumprem a função de destruir os restos pútridos aos quais, todos nós, um dia, nos tornaremos.
Mas o homem, já no tempo dos antigos filósofos gregos especulava sobre a possibilidade imortal da alma humana e criou uma simbologia, posteriormente adotada pelas modernas escolas de mistérios, em que, tal qual na matéria, também a força vital ou alma ou espírito, ou qualquer que seja o nome que se queira dar à parte imaterial do homem, passaria pelos princípios da purificação pelos quatro elementos para alcançar o paraíso.
Daí surgir o batismo pela água, para purificação dos pecados, que dispensa maiores comentários por ser comum e do conhecimento geral.
Daí surgir o batismo pela terra, no qual o indivíduo, por algum tempo, permanece enterrado, apenas mantendo a cabeça de fora, para purificação. Técnica até hoje ainda praticada por alguns faquires da Índia. Alguns ficam até mesmo com a cabeça enterrada pelo processo que conhecem por catalepsia. Por este processo esperam alcançar a pureza necessária para comungar com o Criador.
Daí surgir o batismo pelo ar. O indivíduo se acomoda no alto da montanha em posição "Yogui" e ali permanece algum tempo a respirar o ar puro e limpo da altitude, em meditação e purificação. Espera com isso alcançar a comunhão universal.
Daí surgir o batismo pelo fogo. O indivíduo atravessa por meio das chamas de uma fogueira, purificando-se de seus pecados. Até hoje, em nossas festas juninas, existe o ritual de passar pelo fogo, pisando brasas quentes e, assim, purificando-se ou harmonizando-se com a divindade ou com os santos da devoção.
Percebeu o homem, entretanto, que de todos os elementos é o do fogo o que melhor se assemelha ao desprendimento da alma do corpo. A chama ao alcançar determinada altura desprende-se de sua base geradora e extingue-se no ar. Assim a alma desprendendo do corpo que a prende ao chão (à matéria) eleva-se extinguindo.
Todos os elementos estão atrelados à matéria, pois são constituídos pelos átomos, que por sua vez são constituídos pelos elétrons, prótons e nêutrons, que por sua vez são constituídos por elementos ainda menores, conforme nos dão conta as ciências físicas e biológicas. Eis aí o oxigênio e o hidrogênio, quiçá outros elementos, dando vida àquilo que a primeira vista nos parece sem vida.
Também o fogo.
Ao contrário da água que muda de estado ao passar do líquido para o gasoso pelo processo da evaporação (calor), mas que retorna ao seu status natural ao resfriar-se na atmosfera, a chama do fogo ao alcançar as alturas desprendendo-se da base material (um pedaço de lenha convertida em brasa, por exemplo) não retorna, mas extingue-se no nada.
Mas compreendamos que o nada não existe. O que parece o nada é o tudo. É o ar carregado com miríades de partículas cósmicas de luz, calor, eletricidade e outros elementos físicos e químicos aos quais nossas limitações sensoriais não percebem.
Tal como a chama é a alma do homem, ao desprender-se do corpo que a abrigava, extingue-se no éter.
O fogo é, portanto, fonte de purificação, limpeza, mas, sobretudo, de luz e calor.
Os homens das cavernas faziam uso da luz e do calor do fogo, para seu conforto e benefício.
Por analogia, os filósofos gregos que mencionamos acima e cujos princípios científicos encontraram, primordialmente, na civilização egípcia, atribuíram à luz o significado de conhecimento, porque a luz nos permite destruir as trevas, que simboliza a ignorância.
E, ao calor, o significado de amor, pois o amor aquece os corações, aquece as relações entre os homens, aquece a convivência, aquece a vida.
De modo que calor humano pode ser compreendido como amor humano. Quantas vezes dizemos que sentimos em nossos irmãos um verdadeiro "calor humano". É a expressão utilizada para amor humano.
As religiões são sábias e adotaram todos estes princípios em seus ensinamentos, muito antes da vinda de Cristo à terra.
Cristo, mesmo, teria dito: "eu não vim para modificar a Lei, mas para cumprir a Lei e para fazer com que se cumpra a Lei". Queria com isso dizer que aceitava a fogo como símbolo do conhecimento e do amor espiritual. Não nos esqueçamos que a definição de símbolo é a de que: "símbolo é a representação material de coisas imateriais.
Os sacerdotes de quase todos os cultos e credos adotaram o inferno como sendo um lugar terrível, onde a alma do homem padeceria horrores eternos, sendo queimada pelo fogo e por ele consumida e, como as chamas que se extinguem no ar, um dia (o do Juízo) aquela alma padecente também se extinguiria para sempre, sem esperanças de uma vida futura.
O inferno seria um lugar tenebroso, pleno de lágrimas e ranger de dentes, sofrimentos indescritíveis, padecimentos, queimaduras, chagas, desfazimento em óleo, piche e outras substâncias geradoras de quentura e horror.
E aí os sacerdotes misturam o corpo e alma e os colocam no mesmo embrulho, dizendo que o corpo se juntaria à alma no padecimento eterno, justificando, com afirmativas que consideram indiscutíveis, que os corpos ressurgiriam da condição de mortos para a vida sofredora do inferno. É a troca de uma desgraça (para não usar outro termo) por outra.
Considerando que Jesus teria: "sendo morto, descido aos infernos e ressuscitado no terceiro dia, subido aos céus, onde está à direita de Deus Pai...", a idéia que temos é que o significado correto para "inferno" seria "sepultura", como, aliás, aceitam alguns estudiosos e não local de padecimentos eternos.
Porém, ainda que considerássemos o "inferno" como um lugar de "pagamento de pecados", não seria no sentido alardeado pelos catastrofistas, de padecimentos, mas, sim, o de um lugar para onde a alma do homem, uma vez desprendida do corpo, se dirigiria a fim de passar pela purificação.
Esta purificação seria alcançada pelas chamas do fogo, mas não no sentido de queimar, de martirizar, mas de esclarecer, orientar, ensinar, levar o pecador ao conhecimento da verdade, fazendo com que, passando pelo calor do amor divino, compreendesse a insensatez de sua conduta pecaminosa em vida e dela se arrependesse, profundamente, recebendo de Deus o perdão final.
Assim purificado pelo fogo, tendo obtido o conhecimento das verdades eternas e sido batizado pelo amor divino, estaria pronto para compartilhar da Assembléia dos Justos, fazendo parte das hostes celestiais e gozando as delícias do paraíso.
Este é o significado que os antigos filósofos, criadores da teoria da purificação da alma, quiseram dar a este imaginário local do além para onde se dirigiriam as almas pecadoras, isto é, para onde se dirigiriam as almas que, na terra, viveram em erro e em desamor para com seus semelhantes.
Deus é amor, não é sádico. Não quererá que seus filhos sofram pela eternidade; seria o cúmulo da incoerência, coisa que não aceitamos no uso de nossa boa razão.
Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade (o conhecimento) e a vida (e não a morte). A alma do homem existe e é eterna. Não se extingue porque é uma centelha da Alma Maior Divina com a qual se une após desencarnar de suas vestimentas materiais.
Se for para aprender e para amar no sentido fraterno do amor, o inferno poderá ser uma boa escola. O professor, um anjo de bondade. E o capeta... Ora, o capeta não existe. O capeta é a maldade que faz ninho em nossos corações.
Xô capeta!
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