Edição 22/08/2011 às 22:28h
Conto que valeu dez contos
Cronista conta estória antiga e engraçada
Nossa moeda que hoje é o real já foi um dia o cruzeiro. Antes do cruzeiro foi o cruzado e antes do cruzado, o cruzeiro novo. Antes ainda do cruzeiro novo, era o cruzeiro mais antigo. Anteriormente ao cruzeiro mais antigo foram os réis que em seus milhares eram conhecidos como contos de réis.
Pois bem, nossa história de hoje é do tempo dos contos de réis, portanto, muito antiga.
E não sabemos se se trata de um fato acontecido ou se foi apenas boataria que naquele tempo como hoje ia de rastilho a todos os cantos onde habita o homem.
De qualquer modo, qualquer semelhança com acontecimentos passados pode ser indício de realidades mortas e sepultadas.
O Norte Pioneiro já estava colonizado e as fazendas de café se espalhavam pelos municípios.
O produto colhido, tratado e ensacado era encaminhado ao porto de Santos para o embarque para o exterior.
Estas fazendas tinham quase todas as características comuns.
As casas dos fazendeiros ficavam na parte mais alta do terreno. Normalmente construídas de tijolos eram grandes e confortáveis.
Lá embaixo, à beira do “córgo” (que era como se pronunciava popularmente córrego) enfileiravam-se as casas dos colonos, cujo número variava conforme o tamanho da propriedade ou conforme o número dos meeiros que eram os sócios do proprietário no cultivo das lavouras.
Estas casas mais simples e menores eram às vezes de tijolos, às vezes de madeira.
Não havia encanamento de água para elas.
Apanhava-se água em baldes no córrego para lavar e cozinhar. Filtrava-se ou fervia-se para beber.
Também não havia sistema de esgoto adequado, como, aliás, até hoje ainda não há em áreas rurais.
Os lugares apropriados para as necessidades fisiológicas eram pequenas construções conhecidas como casinhas e que distavam de trinta a cinqüenta metros da casa do respectivo colono. Cada casa de colono tinha sua casinha que servia a ele e à família.
Entre a casa do Patrão e as dos colonos situavam-se a Escola, a Igreja, os abrigos das máquinas, garagem, paióis, tulhas e outras construções utilizadas na agricultura.
Estas construções eram permeadas por caminhos, plantações, árvores nativas, árvores de pomar, hortas comunitárias e outros obstáculos naturais à vista. Ao mesmo tempo em que todos se viam, todos se escondiam com facilidade.
Vamos agora imaginar aquelas antigas fazendas passadas dos pais aos filhos e destes vendidas a terceiros que por sua vez revendiam e no passar dos anos as construções iam ficando velhas, as casas descoloridas, os cafezais envelhecidos e uma provável decadência podia ser pressentida por quem apreciasse a paisagem.
Assim era a propriedade em que viviam os personagens da história de hoje.
Dizem que por dez contos de réis o patrão seduziu a bela esposa de um de seus colonos.
O patrão era homem casado e pai de muitos filhos – porque naqueles tempos de antes da televisão não havia outra coisa a fazer a noite e os homens disputavam entre si a potência da virilidade pelo número de filhos que fazia na esposa e, glória das glórias, nas amantes.
Era considerado o máximo da macheza a quantidade de filhos e de amantes que conseguia manter fora do lar. Era a prova definitiva de que o “cabra era macho” mesmo.
Confessamos não entender até hoje esta expressão. Ora, se é cabra não pode ser macho porque cabra é fêmea e o macho da cabra é o bode. E se é macho não é cabra, pois cabra, repetimos, é fêmea. Portanto se o homem é cabra não é macho, é fêmea e se é macho é homem e não cabra. É melhor parar por aqui e aceitar como expressão popular consolidada.
A rapariga era moça nova de boas coxas, robusta, busto farto, vestida sempre com as roupinhas da roça, deixando entrever tudo e dando asas à imaginação de quantos com quem palestrasse, era das que sabiam ler nas entrelinhas, inteligente e maliciosa se deixou seduzir pelos dez contos de réis ou pelo poder econômico do patrão que belo, dizem, não era.
A patroa, como sói acontecer, não sabia de nada e nem o marido premiado com os cornos, embora todos na colônia soubessem. Sustentava-se, pois, a tese de que o traído é sempre o último a tomar conhecimento de fatos desta natureza.
O marido, coitado, só de vê-lo percebia-se que era daqueles destinados ao pior. Ainda mais com aquele pedaço de mulher. Aliás, não se sabia na colônia, como um sujeito daqueles, um Zé Ninguém, um sujeito de beldroegas nenhumas, conseguira casar de papel e padre com uma deusa daquelas! Era coisa de assombrar!
E onde se realizava o encontro amoroso?
Adivinhem!
Dizem os românticos que a vida é um teatro e nós somos atores encenando dramas e comédias. Muito mais dramas que comédias.
Se o caso não fosse trágico, seria cômico.
Ou é cômico?
Deixamos aos leitores para que julguem, ao final.
Os encontros amorosos a princípio tímidos, temerosos e muito escondidos, foram ficando cada vez mais às claras e despudorados.
Lembrem-se de que estamos falando de um tempo passado. Tempo em que a boa conduta moral das pessoas era muito exigida.
Primeiro, a dona ia para a casinha. Algum tempo depois, seguia o Romeu apaixonado. A cena, a repetir-se quase que diariamente, foi se tornando corriqueira e o que era escondido no início foi ficando do conhecimento de todos. Como diz o velho brocardo: “nada do que é feito às escondidas por um tempo, permanece escondido por todo o tempo”.
E os colonos comentavam a boca pequena.
Pela constância dos encontros presumia-se que os dez contos iam se multiplicando, escondidos, segundo diziam, em meio às palhas do colchão – que naqueles tempos eram feitos da palha do milho – da bela mulher.
O amor se realizava durante o dia quando todos estavam ocupados em seus afazeres. Os homens na faina da roça, as mulheres a cuidar da casa, lavando e passando roupas, preparando comida, cuidando de crianças, auxiliando os maridos nas lavouras e assim, na madorra do tórrido verão, a libertinagem acontecia.
O amor é sempre belo e dizem que ainda é mais belo entre amantes em risco, pois o fruto proibido torna-se mais apetitoso. A simples perspectiva de serem tolhidos em flagrante delito faz ferver a adrenalina, levando os participantes ao paraíso e tornando mais saboroso cada instante do ato.
Mas, convenhamos, consumação sexual dentro da casinha não deve ser coisa fácil, nem tão agradável, não é mesmo?
Primeiro, pelo espaço exíguo que, imaginamos, deva levar os amantes, obrigatoriamente, às posições mais incômodas, daquelas que sequer foram imaginadas no “Kama-Sutra”.
Depois, pelo odor que deve exalar de dentro do buraco onde numa efervescência de excrementos de várias gerações de colonos ali depositados levados à potência máxima pelo calor reinante no mês de fevereiro (dizem que o auge dos fatos se deu num mês de fevereiro), deveria tornar o ambiente repugnante.
Imaginem meus leitores, que o lugar escolhido para que a volúpia amorosa aflorasse não era uma grande banheira de hidromassagem perfumada com águas aromáticas, óleos e sais minerais, exalando doçura e suavidade de jasmins e alfazemas e decoradas com lindas pétalas de rosas vermelhas.
Nem os trajes para o encontro eram “robe de chambre” ou finas “lingeries”.
Não. Nada disso. Grandes estilistas mundiais criadores da alta costura e da moda não eram conhecidos naquele meio.
A alcova era uma latrina, fedendo a bosta.
E os gazes que exalavam do buraco, no calor de fevereiro, espantavam até os urubus que voavam, fazendo-os tomar rotas que distassem daquela fedentina.
Contam que a fazenda estava em decadência e muitas de suas construções inutilizadas pelo tempo. O que ainda funcionava, funcionava precariamente. E as casinhas não estavam em melhor estado. Estavam podres com seus alicerces de velhos troncos de madeira comprometidos.
Nos telhados já faltavam telhas e as paredes de tábuas, roídas pelos cupins, não davam segurança nenhuma.
A que servia de alcova para nossos amantes era das piores. Estava mais combalida ainda porque, além do natural uso diário, estava submetida aos embates amorosos que comprometiam mais suas já combalidas resistências.
Aquele chacoalhar de casinha ainda vai dar em tragédia, dizia um. Ao que outro retrucava: cai não, madeira boa, angico de primeira. O tempo ia passando... O amor desabrochando... O fedor exalando... A casinha perigando... E o casal, feliz no adultério, julgava-se protegido por Deus e pelo mundo.
Deus dá oportunidade ao homem para que se arrependa, para que se redima. Mas até Ele cansa-se de esperar e chega um dia em que decreta que se cumpram as leis naturais e as da física são algumas delas.
Finalmente aconteceu o que era esperado. Aconteceu o que deu origem a nossa história. Aconteceu o que os mais precavidos temiam que acontecesse.
O assoalho apodrecido cedeu e o casal amante foi ao fundo do lago de merdas amolecidas pelas mijadas de tantos anos, estreito, mas profundo.
No desespero do susto e da tragédia imprevista – com o afundamento do assoalho vieram abaixo as paredes e os telhados, produzindo barulheira nas vizinhanças – o casal pôs-se a gritar soterrado na merda e encoberto pelos destroços (vejam que beleza de trocadilho).
Com o barulho, a cachorrada que dormia a sono solto depois do almoço, acordou assustada e pôs-se a ladrar e a correr, provocando uma algazarra porque espantavam as galinhas que cacarejavam, voavam e corriam pelos terreiros.
Foi uma anarquia geral.
Na azáfama, naquela atrapalhação toda, nenhuma das mulheres que estava por ali naquela hora ousava intervir, com medo de serem envolvidas na trama amorosa. Assim, ninguém ajudava o desastrado casal que permanecia com merda pelos pescoços.
Até que uma delas, mais humana e se compadecendo depois de muito ponderar a situação resolveu jogar uma corda para içar os infortunados que, com máscaras de lama pelo corpo, correram para os seus cantos isolando-se e a banhar-se.
Mas não foi tarefa fácil e nem tão rápida retirar os náufragos porque a piedosa mulher não tinha forças, as cordas eram velhas e meladas no lodaçal ficavam escorregadias. O casal, ao tentar subir, escorregava. Um após outro retornava ao fundo da lama e, alternando-se, iniciavam nova tentativa até que, enfim, conseguiram pisar solo firme.
Assim colocamos um ponto em nossa história – que está fedendo até hoje segundo contam – mas prosseguiremos numa próxima oportunidade com os capítulos que deverão seguir-se, porque os leitores certamente ficarão desejosos de saber como ficaram depois os personagens na comunidade.
Pois bem, nossa história de hoje é do tempo dos contos de réis, portanto, muito antiga.
E não sabemos se se trata de um fato acontecido ou se foi apenas boataria que naquele tempo como hoje ia de rastilho a todos os cantos onde habita o homem.
De qualquer modo, qualquer semelhança com acontecimentos passados pode ser indício de realidades mortas e sepultadas.
O Norte Pioneiro já estava colonizado e as fazendas de café se espalhavam pelos municípios.
O produto colhido, tratado e ensacado era encaminhado ao porto de Santos para o embarque para o exterior.
Estas fazendas tinham quase todas as características comuns.
As casas dos fazendeiros ficavam na parte mais alta do terreno. Normalmente construídas de tijolos eram grandes e confortáveis.
Lá embaixo, à beira do “córgo” (que era como se pronunciava popularmente córrego) enfileiravam-se as casas dos colonos, cujo número variava conforme o tamanho da propriedade ou conforme o número dos meeiros que eram os sócios do proprietário no cultivo das lavouras.
Estas casas mais simples e menores eram às vezes de tijolos, às vezes de madeira.
Não havia encanamento de água para elas.
Apanhava-se água em baldes no córrego para lavar e cozinhar. Filtrava-se ou fervia-se para beber.
Também não havia sistema de esgoto adequado, como, aliás, até hoje ainda não há em áreas rurais.
Os lugares apropriados para as necessidades fisiológicas eram pequenas construções conhecidas como casinhas e que distavam de trinta a cinqüenta metros da casa do respectivo colono. Cada casa de colono tinha sua casinha que servia a ele e à família.
Entre a casa do Patrão e as dos colonos situavam-se a Escola, a Igreja, os abrigos das máquinas, garagem, paióis, tulhas e outras construções utilizadas na agricultura.
Estas construções eram permeadas por caminhos, plantações, árvores nativas, árvores de pomar, hortas comunitárias e outros obstáculos naturais à vista. Ao mesmo tempo em que todos se viam, todos se escondiam com facilidade.
Vamos agora imaginar aquelas antigas fazendas passadas dos pais aos filhos e destes vendidas a terceiros que por sua vez revendiam e no passar dos anos as construções iam ficando velhas, as casas descoloridas, os cafezais envelhecidos e uma provável decadência podia ser pressentida por quem apreciasse a paisagem.
Assim era a propriedade em que viviam os personagens da história de hoje.
Dizem que por dez contos de réis o patrão seduziu a bela esposa de um de seus colonos.
O patrão era homem casado e pai de muitos filhos – porque naqueles tempos de antes da televisão não havia outra coisa a fazer a noite e os homens disputavam entre si a potência da virilidade pelo número de filhos que fazia na esposa e, glória das glórias, nas amantes.
Era considerado o máximo da macheza a quantidade de filhos e de amantes que conseguia manter fora do lar. Era a prova definitiva de que o “cabra era macho” mesmo.
Confessamos não entender até hoje esta expressão. Ora, se é cabra não pode ser macho porque cabra é fêmea e o macho da cabra é o bode. E se é macho não é cabra, pois cabra, repetimos, é fêmea. Portanto se o homem é cabra não é macho, é fêmea e se é macho é homem e não cabra. É melhor parar por aqui e aceitar como expressão popular consolidada.
A rapariga era moça nova de boas coxas, robusta, busto farto, vestida sempre com as roupinhas da roça, deixando entrever tudo e dando asas à imaginação de quantos com quem palestrasse, era das que sabiam ler nas entrelinhas, inteligente e maliciosa se deixou seduzir pelos dez contos de réis ou pelo poder econômico do patrão que belo, dizem, não era.
A patroa, como sói acontecer, não sabia de nada e nem o marido premiado com os cornos, embora todos na colônia soubessem. Sustentava-se, pois, a tese de que o traído é sempre o último a tomar conhecimento de fatos desta natureza.
O marido, coitado, só de vê-lo percebia-se que era daqueles destinados ao pior. Ainda mais com aquele pedaço de mulher. Aliás, não se sabia na colônia, como um sujeito daqueles, um Zé Ninguém, um sujeito de beldroegas nenhumas, conseguira casar de papel e padre com uma deusa daquelas! Era coisa de assombrar!
E onde se realizava o encontro amoroso?
Adivinhem!
Dizem os românticos que a vida é um teatro e nós somos atores encenando dramas e comédias. Muito mais dramas que comédias.
Se o caso não fosse trágico, seria cômico.
Ou é cômico?
Deixamos aos leitores para que julguem, ao final.
Os encontros amorosos a princípio tímidos, temerosos e muito escondidos, foram ficando cada vez mais às claras e despudorados.
Lembrem-se de que estamos falando de um tempo passado. Tempo em que a boa conduta moral das pessoas era muito exigida.
Primeiro, a dona ia para a casinha. Algum tempo depois, seguia o Romeu apaixonado. A cena, a repetir-se quase que diariamente, foi se tornando corriqueira e o que era escondido no início foi ficando do conhecimento de todos. Como diz o velho brocardo: “nada do que é feito às escondidas por um tempo, permanece escondido por todo o tempo”.
E os colonos comentavam a boca pequena.
Pela constância dos encontros presumia-se que os dez contos iam se multiplicando, escondidos, segundo diziam, em meio às palhas do colchão – que naqueles tempos eram feitos da palha do milho – da bela mulher.
O amor se realizava durante o dia quando todos estavam ocupados em seus afazeres. Os homens na faina da roça, as mulheres a cuidar da casa, lavando e passando roupas, preparando comida, cuidando de crianças, auxiliando os maridos nas lavouras e assim, na madorra do tórrido verão, a libertinagem acontecia.
O amor é sempre belo e dizem que ainda é mais belo entre amantes em risco, pois o fruto proibido torna-se mais apetitoso. A simples perspectiva de serem tolhidos em flagrante delito faz ferver a adrenalina, levando os participantes ao paraíso e tornando mais saboroso cada instante do ato.
Mas, convenhamos, consumação sexual dentro da casinha não deve ser coisa fácil, nem tão agradável, não é mesmo?
Primeiro, pelo espaço exíguo que, imaginamos, deva levar os amantes, obrigatoriamente, às posições mais incômodas, daquelas que sequer foram imaginadas no “Kama-Sutra”.
Depois, pelo odor que deve exalar de dentro do buraco onde numa efervescência de excrementos de várias gerações de colonos ali depositados levados à potência máxima pelo calor reinante no mês de fevereiro (dizem que o auge dos fatos se deu num mês de fevereiro), deveria tornar o ambiente repugnante.
Imaginem meus leitores, que o lugar escolhido para que a volúpia amorosa aflorasse não era uma grande banheira de hidromassagem perfumada com águas aromáticas, óleos e sais minerais, exalando doçura e suavidade de jasmins e alfazemas e decoradas com lindas pétalas de rosas vermelhas.
Nem os trajes para o encontro eram “robe de chambre” ou finas “lingeries”.
Não. Nada disso. Grandes estilistas mundiais criadores da alta costura e da moda não eram conhecidos naquele meio.
A alcova era uma latrina, fedendo a bosta.
E os gazes que exalavam do buraco, no calor de fevereiro, espantavam até os urubus que voavam, fazendo-os tomar rotas que distassem daquela fedentina.
Contam que a fazenda estava em decadência e muitas de suas construções inutilizadas pelo tempo. O que ainda funcionava, funcionava precariamente. E as casinhas não estavam em melhor estado. Estavam podres com seus alicerces de velhos troncos de madeira comprometidos.
Nos telhados já faltavam telhas e as paredes de tábuas, roídas pelos cupins, não davam segurança nenhuma.
A que servia de alcova para nossos amantes era das piores. Estava mais combalida ainda porque, além do natural uso diário, estava submetida aos embates amorosos que comprometiam mais suas já combalidas resistências.
Aquele chacoalhar de casinha ainda vai dar em tragédia, dizia um. Ao que outro retrucava: cai não, madeira boa, angico de primeira. O tempo ia passando... O amor desabrochando... O fedor exalando... A casinha perigando... E o casal, feliz no adultério, julgava-se protegido por Deus e pelo mundo.
Deus dá oportunidade ao homem para que se arrependa, para que se redima. Mas até Ele cansa-se de esperar e chega um dia em que decreta que se cumpram as leis naturais e as da física são algumas delas.
Finalmente aconteceu o que era esperado. Aconteceu o que deu origem a nossa história. Aconteceu o que os mais precavidos temiam que acontecesse.
O assoalho apodrecido cedeu e o casal amante foi ao fundo do lago de merdas amolecidas pelas mijadas de tantos anos, estreito, mas profundo.
No desespero do susto e da tragédia imprevista – com o afundamento do assoalho vieram abaixo as paredes e os telhados, produzindo barulheira nas vizinhanças – o casal pôs-se a gritar soterrado na merda e encoberto pelos destroços (vejam que beleza de trocadilho).
Com o barulho, a cachorrada que dormia a sono solto depois do almoço, acordou assustada e pôs-se a ladrar e a correr, provocando uma algazarra porque espantavam as galinhas que cacarejavam, voavam e corriam pelos terreiros.
Foi uma anarquia geral.
Na azáfama, naquela atrapalhação toda, nenhuma das mulheres que estava por ali naquela hora ousava intervir, com medo de serem envolvidas na trama amorosa. Assim, ninguém ajudava o desastrado casal que permanecia com merda pelos pescoços.
Até que uma delas, mais humana e se compadecendo depois de muito ponderar a situação resolveu jogar uma corda para içar os infortunados que, com máscaras de lama pelo corpo, correram para os seus cantos isolando-se e a banhar-se.
Mas não foi tarefa fácil e nem tão rápida retirar os náufragos porque a piedosa mulher não tinha forças, as cordas eram velhas e meladas no lodaçal ficavam escorregadias. O casal, ao tentar subir, escorregava. Um após outro retornava ao fundo da lama e, alternando-se, iniciavam nova tentativa até que, enfim, conseguiram pisar solo firme.
Assim colocamos um ponto em nossa história – que está fedendo até hoje segundo contam – mas prosseguiremos numa próxima oportunidade com os capítulos que deverão seguir-se, porque os leitores certamente ficarão desejosos de saber como ficaram depois os personagens na comunidade.
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