Edição 09/08/2011 às 19:18h

Meu santo padim Ciço

Texto comenta devoção de nordestinos ao religioso

clique para aumentar Meu santo padim Ciço

Se há alguma coisa que atrai a atenção e induz a um estudo mais acurado é a devoção, pura e sincera, do povo brasileiro para as coisas da religião.

É verdade que todos os povos da terra, nos diferentes espaços geográficos e através de todos os tempos, de um jeito ou de outro, reverenciaram seu deus ou seus deuses.

O mundo ocidental evoluiu do judaísmo para o cristianismo e nós, brasileiros, colonizados por povos católicos, especialmente os portugueses, acabamos herdando deles o modo cristão de ver a vida, tanto terrena ou material, como a espiritual ou no após morte.

Muito mais no Nordeste do que em outras regiões a fé católica se faz sentir. E de maneira muito acentuada. Talvez por que toda a colonização tenha tido seu começo por lá e sabemos que a colonização só alcançou o sucesso, por absoluto empenho da Igreja Católica Romana: por sua ação apostólica, por sua interferência política, por sua grande influência junto ao povo e por sua capacidade de se impor como representantes da Santíssima Trindade.

Afirmamos, assim, não por que nos agrade ou por que sejamos favoráveis a esta ou aquela seita, mas por que traduz uma realidade histórica da qual, honestamente, não temos como nos afastar.

Todo trabalho apostólico acabou redundando na educação religiosa do povo e mais, toda ação de atendimento à gente sofrida, como na atuação das irmãzinhas de caridade e dos padres, dentro dos hospitais, dos asilos, dos internatos, dos seminários, dos conventos, dos educandários, das paróquias e até dentro dos exércitos como capelães, criou na população um profundo respeito à religião.

É claro que, como em toda organização humana, vamos encontrar exemplos negativos, mas a Igreja tem muito mais, mas muito mais mesmo, de bom para ser lembrado do que de ruim ou de negativo.

Causa admiração e muito respeito quando vemos chegar de todos os cantos do Brasil, ônibus e mais ônibus, caravanas e mais caravanas de devotos que se dirigem a Juazeiro para reverenciar o "Santo Padi" como é conhecido popularmente o Santo Padre Cícero.

Será que merece o nome de Santo?

Oficialmente não.

A Igreja Católica, embora reconheça as qualidades morais do padre – sua modéstia, humildade, virtuosidade, pureza e inteligência – e, também, suas qualidades de homem de ação como empreendedor (Construção do Templo Católico dedicado à Nossa Senhora da Dores, em Juazeiro e outras obras de fins religiosos), sua luta intensa em favor dos flagelados pela seca do nordeste, sua batalha por melhores condições de vida, de saúde e de educação em favor de um povo miserável, esquecido das autoridades públicas, não reconhece nele o Santo que o povo insiste em bendizer.

Nasceu de dona Joaquina Vicência Romana, no Crato, no dia 24 de março de 1844 e recebeu na pia batismal o nome de Cícero Romão Batista.

Foi ordenado sacerdote na Igreja da Prainha, em Fortaleza, no Ceará, no dia 30 de setembro de 1870, por D. Luís Antonio dos Santos, primeiro bispo do Ceará.

Ordenado, é nomeado capelão da Capela de Nossa Senhora das Dores em Juazeiro, onde ocorre, em 06 de março de 1889, a transformação da hóstia em sangue, na hora em que comungava M. de Araújo. O primeiro, de muitos milagres realizados depois, segundo a história.

Este milagre gerou polêmica, controvérsias, desmentidos, conversas e desconversas, com crentes e descrentes tomando este ou aquele lado. Favor ou contra, o padre foi tema de processo que foi parar no Vaticano, em busca de solução.

Superiores, Bispos e povo tomaram posição e a Igreja, oficialmente, não aceitou o milagre. Padre Cícero foi impedido de rezar missas e prestar serviços religiosos, o que muito o abateu.

Viajou a Roma onde fez sua defesa ante as autoridades maiores da Igreja e voltou revestido de seus direitos, reassumindo a Igreja de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro.

Por outro lado, por sua intensa ação em favor dos mais pobres e desfavorecidos, acabou por entrar na política e esta, talvez, seja uma das principais razões por que tenha sido tão perseguido.

Vejamos sua carreira política, só como ilustração:

Juazeiro não era Município. Era povoado (ou Distrito) do Crato. Lugarzinho insignificante e miserável. Quando lá chegou, o Padre Cícero transformou o lugar, levando o progresso e o desenvolvimento junto com sua atividade pastoral. Em 22 de julho de 1911, o Povoado é levado à condição de Município e Padre Cícero tomou posse como seu Primeiro Prefeito no dia 04 de outubro de 1911.

Em 20 de janeiro de 1912, Padre Cícero é eleito terceiro Vice-Presidente do Estado do Ceará.

Em 14 de dezembro de 1913, Padre Cícero convoca o povo para cercar Juazeiro de trincheiras e muralhas, em defesa da Cidade, que forças inimigas do Governo Federal queriam arrasar.

Em 21 de janeiro de 1914 houve um segundo ataque das forças inimigas do Governo Federal contra Juazeiro. Juazeiro, liderada por padre Cícero, vence a batalha.

Em 22 de julho de 1914, Padre Cícero é eleito primeiro Vice-Presidente do Estado.

Em 16 de abril de 1926, Padre Cícero é eleito Deputado Federal, mas não assumiu o cargo, talvez, por sua idade já avançada.

A carreira política, embora intensa, era um mero caminho que o Santo Padre percorria para encontrar recursos para melhorar a vida de seus fiéis, gente sofrida do Nordeste.

Muito mais intensa era sua atividade pastoral frente ao altar rezando as missas, batizando, casando, ministrando extrema unção, visitando doentes, consolando aflitos, prestando socorro físico e espiritual, combatendo, ombro a ombro com os caboclos, as misérias deixadas pelas secas, como se percebe em trechos desta carta:

"...Eu nunca pensei ver tanta aflição e desespero juntos; os cães saciam-se de carne humana, nos caminhos, no campo. Por toda parte é um cemitério e o que mais aflige é que nem ao menos têm a consolação da fé, sem sacramentos, sem nem ao menos uma voz amiga que lhes fale da Eternidade, onde vão sumir como viveram (por morrerem sem os sacramentos, não teriam salvação-(OBSERVAÇÃO NOSSA)) abandonados dos homens e como que até de Deus. Tudo fala de retirar-se... (Fuga para outras regiões – (IDEM)). Ficarei eu à mercê de Deus, ao menos darei absolvição aos que puder, embora depois Deus disponha o que for servido."

Uma magnífica estátua de vinte e cinco metros de altura erguida no meio do vale do Cariri, um oásis no sertão, distando mais ou menos seiscentos quilômetros das principais capitais do Nordeste, representa o Santo Padre vestido de batina, chapéu e cajado na mão.

É pra lá que se dirigem os milhares de fiéis devotos do Padre que consideram Santo. Vêm penitentes, uns pagando suas promessas em agradecimento às graças recebidas outros pedindo por saúde, paz e amor, outros ainda, apenas para louvar e bendizer ao Padre e, todos, dando testemunho de extremo fervor.

Dá gosto ver a imensa fila de pessoas, a grande maioria usando chapéus de palhinha clara para combater os rigores do verão, acenando com lenços de cambraia ou linho ou até de chita, para a imensa imagem de pedra.

Uma imagem que não é divindade, mas a representação da força moral de um homem devotado à causa de Deus e da humanidade. Um homem cuja alma, sem dúvida, é santa, não tanto pelos milagres que possivelmente realize ou realizou, mas pelo bem que empreendeu em favor de seus semelhantes.

Se não se conhece muito bem, aqui no Sul, esta figura maravilhosa pergunte a um Nordestino o que representa o Padre Cícero para ele, a família e a comunidade Nordestina.

Morreu no dia 20 de julho de 1934, aos noventa anos de idade, às seis e meia da manhã, depois de receber os últimos sacramentos.

Este é o nosso "Santo Padi, o Padim Ciço", um verdadeiro Santo para o povo.

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