Edição 31/07/2011 às 16:19h

O Discurso do Rei

Cronista comenta filme sobre nobre inglês

Gosto de conversar, falar ou escrever sobre todos os temas artísticos verdadeiramente dignos de assim serem considerados pelo primor, pela pureza, pelo refinamento e pela capacidade de tocar, de mexer com a sensibilidade humana.

         “O Discurso do Rei”(foto de uma cena da obra) é obra cinematográfica “diferente”, digamos assim, de quantos filmes tenho visto nestes tempos.

         Histórico. Conta o drama vivido pelo príncipe de York, Albert, posteriormente coroado rei “George VI” da Inglaterra.

         Tartamudo, tartamelo ou gago é o que fala com dificuldade, o que hesita ao pronunciar palavras, o que vacila com freqüência ao conversar.

         Não chega a causar danos físicos ao paciente e nem o leva a morte, mas causa-lhe transtornos de adaptação social, tornando-o tímido, inseguro, acanhado, dificultando o acesso ao relacionamento amoroso e sexual.

         O problema ainda é de causa desconhecida, com grandes possibilidades de ter origem genética e que costuma aparecer logo na infância, principalmente na faixa dos cinco anos de idade e tende a perseguir o indivíduo pela vida afora. A maioria dos acometidos pelo transtorno não consegue se livrar do terrível fardo.

         O que mais desgosta o paciente portador do transtorno é, sem sombra de dúvida, a zombaria a que é submetido desde a idade escolar e por toda a vida.

Alvo de piadas e vítima dos atuais e famosos “bulings” sofre a rejeição e a dor do preconceito, quase sempre calado, sem coragem para procurar ajuda.

         Entretanto esta ajuda hoje existe na pessoa do fonoaudiólogo que trata o individuo e o leva a alcançar maior fluência, diminuindo assim as repetições, bloqueios e hesitações. E do psicólogo, que pode ser de grande importância ao ensinar o paciente a conviver com o problema.

         Agora que conhecemos, ainda que superficialmente, o transtorno da fala, poderemos melhor entender o filme.

         Alberto, ou “Bertie” como era carinhosamente chamado pelos íntimos, foi o segundo filho do rei George V.

Pela ordem da sucessão seu irmão, o primogênito David, interpretado por Guy Pearce, no filme, seria, por direito hereditário e constitucional da Inglaterra, coroado rei Eduardo VIII.

         Além dos dois, parece que o velho rei teve, ainda, um terceiro filho que faleceu com treze anos de idade. Este terceiro filho nascera com problemas sérios de saúde e não vingou. Além de outros males, sofria ataques epilépticos violentos e freqüentes.

         O velho rei George V, ainda em vida, não via futuro em seu primogênito, pela vida desregrada que este levava e temia pela sorte do reino entregue nas mãos do filho que “lhe dava trabalho”.

David não tinha responsabilidades, bebia, farreava não se preocupava com o protocolo a que estavam sujeitos os príncipes, mormente aquele que um dia seria coroado rei e, pior, se engraçou com uma mulher estrangeira, já divorciada uma vez e em vias do segundo divórcio do último marido, para poder se casar com o príncipe herdeiro do trono.

Como futuro rei seria também o grande dirigente da Igreja Anglicana e esta se opunha, veementemente, ao casamento com a divorciada. Fazendo coro com a Igreja o povo Inglês, tradicionalista, também era contra. Finalmente, as leis inglesas não consentiam com aquele enlace matrimonial.   

Entre o reino e a amada o príncipe herdeiro optou pela amada, abdicando do trono.

Na ordem de sucessão Alberto (ou Bertie) se viu, inesperadamente, com a coroa na cabeça. Um príncipe gago que não fora preparado para ser rei, todavia, por força das circunstâncias era coroado soberano da Inglaterra (extraordinariamente interpretado no filme por Colin Firth).

O enredo apresenta três ocasiões em que, na primeira, ainda na condição de Príncipe de York, é obrigado a discursar para uma multidão de súditos do reino na Exibição Imperial de Wembley. O fracasso é total. Gagueja e não consegue levar avante sua oratória, passando pelo maior vexame de sua vida.

A partir daí procura ajuda médica e consulta os maiores terapeutas da Grã Bretanha, não encontrando em nenhum deles a cura para o seu transtorno.

Ajudado pela carinhosa esposa, Elisabeth (Helena Bonham Carter) que seria a futura rainha mãe, não desiste e continua a peregrinação pelos consultórios em busca da sanidade até que encontram, finalmente, a figura de Lionel Logue.

Claro está que, não possuindo diplomas nem sendo oriundo de nenhuma das grandes universidades inglesas, logo começa a sofrer perseguição dos, digamos assim, “licenciados”.

E é verdade. Australiano de nascença, Lionel Logue foi, em começos de sua vida, ator de teatro fracassado, professor de dicção e, já vivendo na Inglaterra, atendia soldados traumatizados chegados da guerra a quem prestava socorro mais moral e afetivo do que propriamente terapêutico.   

Fez nome como terapeuta embora sua placa de profissional deixasse bem claro de que não era médico, mas sim, simples professor de dicção. Para os difamadores: “Um excêntrico terapeuta da fala”.

O futuro rei George VI inicia o tratamento com Lionel, em quem, ao final, encontrou um grande amigo. Amizade que perduraria por toda a vida dos dois e a quem o rei concedeu o título de Comandante da Ordem Real Vitoriana.

         E é aqui que o filme fica “humano”.

Do tratamento feito com dificuldades, com vitórias e fracassos sucessivos, com barreiras e entraves lingüísticos, com sofrimento e dores morais, surge a amizade pura e sincera entre o casal real e o modesto, humilde, mas determinado casal Logue.

         E a cada discurso do rei, a cada enfrentamento na tribuna, a presença de Lionel se faz obrigatória, incentivando, impulsionando, ajudando a vencer as barreiras da fala.

         Em seus ensaios gesticulam, dançam, cantam, imprimem ritmo e harmonia no discurso das palavras. Separam-se os fonemas, estabelecem-se as pausas, trabalham-se as sílabas, modulam a voz, enfim, usam de todos os recursos conhecidos e desconhecidos de que são capazes e, ao final, alcançam a recompensa.

         O rei, no segundo discurso apresentado pelo filme e que coincide com um dos mais importantes de seu reinado, que é o de comunicar aos Ingleses a entrada oficial na segunda grande guerra, consegue, com tensão, mas enorme confiança no companheiro Lionel, a vitória desejada, proferindo um belíssimo discurso que encanta todo o povo Inglês, apesar da dramaticidade do momento.  

         A partir daí, Lionel o acompanha em todos os seus pronunciamentos proferidos durante a grande guerra mundial.

         Ainda que de passagem pelo filme, acho por bem citar dois fatos de relevância, ocorridos na época do rei George VI.

         Primeiro, o fato de que, em decorrência de renúncia do anterior, haver nomeado como primeiro ministro da Inglaterra, Sir Winston Churchil que foi figura destacada no país e entre os aliados durante a guerra.

Segundo, o fato de que Sir Winston Churcil foi um dos grandes apoios que o rei George VI teve, no drama vivido com a gagueira. O próprio Churchil teria tido um problema de natureza parecida.

Escrito por David Seidler e dirigido por Tom Hooper, o filme tem, no elenco, atores de nível, como Claire Bloom no papel de rainha Mary, Timothy Spall, Derek Jaccobi, Jennifer Ehle, Antony Andrews, Michael Gambon e outros renomados artistas.

Com paisagens inglesas maravilhosas, figurino de época impecável, palácios e monumentos extraordinários, costumes sociais e políticos, intrigas palacianas e diplomáticas de guerra, sobretudo, os dramas pessoais, tudo contribui para tornar o filme de alta qualidade e merecedor do Oscar 2011, de melhor filme.

Como poucos que tenho visto, o filme tem muito a nos ensinar. Vale a pena ser visto e ser comentado.

 

Compartilhe esta notícia:

Veja também: